De Onde Vem O Coelhinho?

Muito chocolate faz, sim, mal e pode causar mal estar, mas somente nessa semana todos nós iremos dar uma exageradinha no chocolate. Então nada mais justo que deixar a criançada curtir a Páscoa e, de preferência, em inglês. Uma das vantagens de se trabalhar com alunos dos primeiros anos do ensino fundamental é a facilidade na aquisição da língua estrangeira em função da consolidação do período crítico.

Embora o nome passe a impressão de algo ruim, período crítico é, na verdade, o tempo que a criança tem de maturação, ou seja, é o período em que as conexões neurais se solidificam e coincidem com a consolidação linguística. Birdsong (1999) é um dos representantes mais famosos desse estudo do período crítico e desenvolvimento da língua. Portanto, nada mais legal do que juntar o Coelhinho da Páscoa, o inglês, uma mistura de culturas com atividades dinâmicas que favorecem o aprendizado da língua haja vista as condições de maturação que os alunos estão passando. Dessa vez, tomei a liberdade de usar as ideias da Educaderia, empresa do meu colega Fernando Fragoso, que desenvolve materiais didáticos divertidos com ilustrações muito legais para criar a sugestão de aula pra Páscoa. Sempre, claro, pensando no viés comunicativo da aula de línguas.

Pensando em uma turma de ensino fundamental I (EF I), primeiro ano, ainda há tempo para pegar carona na maturação e, por isso, seria muito legal começar a introduzir sentenças inteiras, trabalhar com estruturas sintáticas juntamente com a apresentação de novos vocabulários, muito comuns nas aulas de inglês pra esse ano. O plano de fundo pra essa atividade é a Páscoa e nada mais bacana do que explorar a imagem do bom e velho coelhinho. Para se trabalhar a oralidade com alunos dessa faixa etária, seria uma ótima ideia utilizar sentenças mais simples mesmo porque a língua materna deles também ainda não está totalmente consolidada. Como aquecimento, o professor pode fazer perguntas simples utilizando contraste para se chegar à resposta “coelhinho”. Por exemplo: “is this the pet for Easter” e vai mostrando figuras ou ilustrações de animais que não sejam um coelho. Após várias perguntas e fotos, uma foto do coelhinho é mostrada e a pergunta muda para  “who is it”, esperando-se uma resposta em conjunto (talvez em português) que se trata do coelhinho da Páscoa. Ótima oportunidade para se apresentar o nome dele em inglês, Easter Bunny.

A Educaderia, empresa que desenvolve e-books e jogos educacionais, oferece um game muito interessante que incentiva a oralidade e a utilização de várias palavras novas. Em uma turma grande, o professor pode dividir os alunos em quatro turmas: grupo vermelho, verde, amarelo e verde. Através de rodadas, cada turno, um grupo fala e várias partes do coelhinho vão sendo introduzidas e trabalhadas, por exemplo, tail, paw, ears, tooth (teeth), eyes, fur, carrot, etc. De acordo com a ilustração da Educaderia, em formato de jogo de tabuleiro, existem pontos de interrogação  que o professor pode utilizar para fazer perguntas extras aos grupos tais como “what’s the eye color of the bunny“, “what’s the favorite food of the Bunny“, etc, para estimular também aqueles alunos que por acaso já se encontrarem num nível linguístico mais desenvolvido que o de seus colegas. Essa primeira parte deve deixar os alunos animados e preparados para trabalharem sozinhos.

Para finalizar a aula, o professor pode pedir que os alunos trabalhem individualmente, ou até mesmo em duplas, desenhando suas versões do Coelhinho da Páscoa com cenários que o professor pode pré estabelecer. O professor pode oferecer aos alunos cenários do tipo fazenda, casa, espaço, floresta para que os alunos insiram seus desenhos e abusem da criatividade e utilizem tudo aquilo que aprenderam durante a aula. Certamente, o período de maturação dos alunos vai ser um importante aliado no aprendizado da língua estrangeira e o professor tem a chance de sair do status quo ao oferecer oportunidade de os alunos se comunicarem para falar sobre o grande personagem da Páscoa.

O Tradicional, o Moderno e o Marketing

Não sou nenhum expert em marketing, nem formação comercial tenho, mas é óbvio que uma empresa busca sempre o lucro e, por esse motivo, investe muito de seu orçamento em propagandas. Porém, é só ligar a TV que facilmente se encontra comerciais falando em “jeito moderno de aprender inglês”. O que podemos esperar dessa afirmação é que a abordagem utilizada pela escola de idiomas esteja alinhada à crescente utilização do estudo linguístico de aquisição de linguagem pelo uso da língua.

Vamos ver se conseguimos dar uma destrinchada no anúncio da TV. No começo do século XX, nos primórdios das aulas de língua estrangeira, o latim era o idioma a ser ensinado. A abordagem utilizada, e a mais antiga, era o da tradução, ou seja, os alunos traduziam textos em latim para sua língua materna e vice versa. Com certeza não vemos mais isso em muitas escolas, quer sejam de idiomas ou regulares. Embora completamente ultrapassada, afinal é impossível medir a profundidade com que a língua foi aprendida através de uma simples tradução de texto, em nível lexical e enriquecimento de vocabulário a tradução é bem valiosa. De acordo com os estudos piagetianos, a língua se desenvolve como uma ferramenta para que a criança obtenha o que deseja. Com a língua estrangeira não é diferente. A língua, no caso o inglês, precisa ser aprendida afim de ser usada como uma ferramenta de comunicação, por isso a abordagem de tradução dos primórdios do século passado é muito obsoleta.

A aquisição de linguagem teve seu turning point quando Chomsky publicou seu material em que consta que todos nós temos uma gramática em nosso cérebro que nos permite decodificar e reproduzir infinitos idiomas. De outro lado, Wittgenstein suporta a importância social da aquisição. Eis que no início dos anos 2000 aparece um estudo que uniu as correntes e sugere que a língua é adquirida através de sua utilização (reprodução) e reforço de pessoas com formação linguística consolidada (adultos) e a maturação cognitiva das crianças são responsáveis pela decodificação (entendimento) da língua (Tomasello, 2003). Bingo! Essa é a grande diferença das escolas de idiomas pras regulares no ensino de inglês, muito embora, por muitas vezes, isso não é feito com qualidade também nas escolas de idiomas. Pegando carona nesse estudo, instituições como TESOL e Cambridge caminham juntas na estrutura do plano de aula dos 3 P’s (presentation, practice, performance), que favorece e corrobora a eficácia do estudo.

Usar a tinta, giz, iPad, smartphones, lápis, caderno, livros, laptops não vão mudar o processo de decodificação da língua inglesa. Eles podem, e tem, outros benefícios, mas acreditar nas propagandas de TV que vendem a ideia de que o fato de se estudar pela internet vai lhe oferecer o que há de mais moderno no aprendizado seja, talvez, confiar no discurso marketeiro.