BYOD… Se A Internet Deixar

Temos visto muitas empresas, fundações e congressos batendo na mesma tecla: tecnologia. Quem curtia Os Jetsons quando criança, ou até mesmo quando adolescentes, e ficava fascinado com aquelas bugigangas, sonhando quando tudo aquilo iria se tornar realidade, pode estar feliz da vida ao ver muitos daqueles conceitos possíveis de serem adquiridos.

As gerações de alunos que chegam até nossa sala de aula têm entrado pela porta com os dedinhos periclitantes dos tablets e smartphones de maneira congênita. Nós não podemos ir contra a maré e proibirmos o uso de equipamentos, na verdade, eles serão nossa ferramenta para que os alunos tenham melhor desempenho em nossas aulas de língua estrangeira.

Um dia desses estava dando uma olhada na minha página da rede social e acabei esbarrando com um recurso tecnológico que eu jamais deria imaginar ser possível estar ao nosso dispor (pessoas que não escrevem códigos): um app que também poder utilizado pelo browser para criação de aplicativos para dispositivos Android. A univerdade americana MIT é responsável por esse projeto, ainda em modo Beta, mas ele é muito fácil de ser usado e até intuitivo para quem já dá umas fuçadas “nessas coisas de tecnologia”. Mesmo assim, é bom ter alguém que seja expert nesse assunto para ajudar, pois ainda tem algumas coisas que nós professores e leigos não sabemos.

Agora imaginem as seguntes opções: nós professores desenvolvermos esse app pensando nos perfis cognitivos e comportamentais de nossos alunos e oferecermos à eles como ferramenta de aprendizado. Ou seja, a contextualidade das aulas de inglês, por exemplo, chega com tudo uma vez que a criançada vai adorar brincar com um app que tenha sido desenvolvido especialmente para eles por alguém que os conhece. No desenvolvimento do aplicativo é possível implementar códigos que reconhecem voz e que gravam voz, isto é, dá pra trabalhar a pronúncia de nossos alunos muito bem de um jeito bem lúdico, dependendo da criatividade do professor.

A segunda opção é trabalharmos em conjunto com professores de computação (nas escolas que têm essa matéria) e fazermos com que os próprios alunos criem seus apps. Assim que eles realizarem essa tarefa, os apps podem servir para que eles mesmo se auto avaliem ou que outros alunos sejam avaliados por eles, aplicando, assim, o conceito de flipped classes que respeita a criatividade, liberdade, pensamento crítico e limitações de cada aluno. Dessa maneira, eles mesmos podem montar as questões, desenvolver atividades e tarefas conforme eles forem aprendendo o conteúdo planejado. Para isso, precisamos, de uma vez por todas, encarar os dispositivos eletrônicos com outros olhos.

Não há mais espaço para proibirmos a presença de celulares, tablets e laptops em sala de aula. Temos o dever de, assim como nas aulas, guiarmos nossos alunos para que eles saibam como utilizar esses equipamentos de um jeito relevante para as aulas. Também precisamos ficar firmes em nossa posição contrária dessa “novidade” de limitação do uso da internet. Programas para levar internet rápida para as escolas brasileiras e que levam tecnologia para escolas rurais custaram a ficar sólidas, agora que estão criando corpo vem esse baque. Internet é o que tem possibilitado o estreitamento da relação entre as pessoas e, mais ainda, o contato entre culturas e conhecimento que favorecem o processo da aquisição de língua estrangeira (Mattiello, 2016).

Portanto, nós professores precisamos aceitar e incentivar que nossos alunos tragam seus próprios aparelhos (em inglês bring your own devices – BYOD). Não pela tecnologia em si, mas pelo fato de ela ser o trampolim para contextualização e, consequentemente, engajamento e aprendizado dos alunos, quesitos preponderantes para sucesso no ensino de língua estrangeira. Isso se a internet não for limitada.

Aphasia And The Super Heroes

groot

Back in the days, when I was in school, if you read comic books you were a huge nerd. I was one of them. It was the early 90’s and the X-Men was a big hit among super heroes with fascinating stories, captivating plots, a whole new universe that easily caught my attention. Then the 21st century came and what we have been witnessing since then is an invasion of super heroes and just like that, we are all nerds and that is cool. What very few people realize is that comic book characters have a gigantic social load underneath their skins, full of behavioral issues, health issues, political issues and also linguistic issues .

Let’s take Marvel’s big hit ‘Guardians of the Galaxy’ as an example. There is this tree-like super hero called Groot whose linguistic competence is limited to and only to this sentence “I am Groot” in this exact order. Which means that whatever a person asks him, tells him, he will utter “I am Groot” and this reminds me of a very serious impairment called aphasia, more precisely, Wernicke’s aphasia. I am far from being a medical doctor, but for those who are getting in touch with this term for the first time, Wernicke’s aphasia is an impairment as a result of a vascular accident or a severe brain injury on the posterior temporal lobe of the left hemisphere of the brain thus interfering speech production. This type of aphasia makes their patients provide utterances that do not provide any continuity to the conversation, although for patients with aphasia (PWAs) they sound themselves absolutely fine, as if their response was pragmatically acceptable for the conversation. Using the example of the film mentioned above we can notice the question in (1) and Groot’s response in (2).

(1) Where did you learn to do that?

(2) I am Groot.

Considering the pragmatic perspective of a dialogue, one needs to use linguistic data that is shared with the interlocutor so that a conversation happens. In (1) we can notice the desire of the speaker for some information that is not provided accordingly given the response does not fulfill the speaker’s request. However, intention is a linguistic feature that has been revisited in the works by Austin (Rajagopalan, 2010) thus the notion of constative utterances tend to be very strict and the performative ones tend to be more frequent which means that whenever a person utters there is always a purpose and an intention. Having understood that, it is possible to study the productions of PWAs, more precisely patients with Wernicke’s aphasia, and investigate the possibility of a locutionary act in their speech. There are some studies that indicate a trace of intention in their speech. Murteira & Santos (2013) state that some PWAs paraphrase in certain situations which may be an evidence of understanding even though their utterances may sometimes stall the entire conversation. If a thorough study brings to surface the hypothesis of a trace of intention, then a linguist can implement some tasks in order to rebuild PWAs speech.

(3) No, Groot! You’ll die! Why are you doing this? Why?

(4) We.. are Groot.

Those who watched the Guardians Of The Galaxy will remember this scene which is in fact a very emotional one. Groot saves his friends by giving up his own life and then he finally changes the subject, from ‘I’ to ‘we’ as can be seen in (4). This instance, although it is only a flick, may be the spark that linguists need to go further in studies that will impact over 3 million Americans who have struggled to communicate due to several types of aphasia. Why is that character a motivation? For starters, having one of the main characters of a blockbuster with a communication impairment and also be a hero is awesome. In addition, knowing that there are people with difficulties in communication can lead linguists to a better understanding of how a language is acquired – a long disputed battle. Results from comprehension tests have displayed a silver lining for the reconstruction of the language where PWAs showed some understanding of idioms (Murteira & Santos, 2013; Burchert, Hanne & Vasishth, 2012), therefore, it is possible to use these instances and turn them into a more coherent utterance.

So, even though Groot performs the very same words in the very same order for whatever a person tells him, the fact he replies and his variety of intonation display comprehension of what is being said to him. Maybe through a very intensive treatment using the Usage-based Learning study (Tomasello, 2003), with a lot of exposure and repetition from both the linguist and the patient, the brain might compensate its impairment and finally produce more comprehensible utterances.

A Linguística (De Fato) Aplicada

O final dos anos 90 e começo da primeira década dos anos dois mil foram períodos muito interessantes. A internet chegou ao Brasil, as redes sociais davam seus primeiros passos, o “bug do milênio” não passou de um medo virtual e o apocalipse virou uma falácia. Além disso, presenciamos um boom de escolas de inglês que foi impressionante. As franquias praticamente brotavam em cada esquina quando o país se viu inserido no mundo graças, também, a internet. Mas qual terá sido  a fórmula mágica que as escolas de idiomas descobriram para tornar o ensino de língua estrangeira tão interessante?

A resposta pode ser mais simples do que imaginamos, só que todo o processo por trás disso é complexo e requer tempo. As escolas de idiomas fazem, cada um à sua maneira, seus alunos falarem. Esse é um dos fatores linguísticos responsáveis pelo crescimento contínuo de centros de idiomas e suas receitas “infalíveis” para se atingir a tão cobiçada fluência. Deixando de lado a eficácia das metodologias, vamos colocar todo foco sobre a grande sacada que foi desnormatizar o ensino de línguas.

Eu sei que já mencionei o trabalho de Tomasello aqui por diversas vezes, mas é que de fato seu estudo sobre desenvolvimento da língua é uma quebra de paradigma nesse tema, pois antes tínhamos somente a ideia de que a fala acontece através de um template linguístico em plano cartesiano. No eixo X, a sintaxe da língua e no eixo Y os léxicos. A partir desse modelo, Chomsky e Pinker (e mais um monte de linguístas gerativistas) publicaram brilhantemente vários estudos mostrando que esse plano cartesiano funcionava para todo mundo pois isso seria parte de uma função lógica do nosso cérebro, isto é, segundo os gerativistas nós encaixamos palavras em seus determinados lugares conforme as ouvimos. Isso seria perfeito em exemplos como (1) e (2).

(1) I run 10 miles everyday.

(2) Yo no tengo un perro.

(3) Parei de pensar e comecei a sentir.

O grande porém desse estudo que coloca o desenvolvimento da fala como algo inato é a desqualificação de um eixo do plano, o eixo Z. Esse eixo representa a intencionalidade na fala e interacionistas apostam quase todas suas fichas no cunho social para a aquisição. Esse viés social declara que nossa língua se desenvolve conforme somos expostos e vamos copiando falantes adultos tanto na parte fonética quanto na ordem e seleção léxica. Por se tratar de um estudo sob fundamentaçoes sociais, a intenção entra em jogo e consegue explicar o significado de (3), sendo que sob o olhar gerativista, pode-se pressupor que a pessoa não sentia enquanto pensava ou até mesmo que ela de fato não vai mais pensar. Pensar que a língua é um fator exposicional, como uma herança cultural mesmo (como disse Wittgenstein), coloca por terra a pobreza de estímulo que chomskinianos apresentam haja vista que a intenção de (3) é explicitamente passada para as gerações.

Eis que então alguém parou e pensou “ei! sim, nós temos cérebro e a fala contém muito de sua parte lógica que nos obriga a usar nossa cognição, mas também precisamos de interações sociais para adquirirmos a intencionalidade”. Essa é praticamente a fundação do estudo que iniciou o Usage-based Learning. A fundamentação teórica (ultra mega hiper resumida) é que nossa fala se desenvolve conforme somos expostos, pensamos e falamos. Segundo Tomasello, nossa fala tem início de maneira singular, ou seja, através de um item e conforme vamos sendo expostos, vamos raciocinando e entendendo o que colocar, onde colocar e o que queremos expressar.

(4) Gone.

(5) It’s gone.

(6) Horsey gone.

(7) The horse is gone.

Todas as instâncias vistas de (4) até (7) mostram evolução da fala conforme exposição e reforço de um falante adulto. Portanto, o que precisamos fazer com nossos alunos dentro de nossas salas de aula é incentivar a fala. E que fique bem claro que repetição, pedir pra que alunos leiam em voz alta ou simplemente pedir pra que eles criem uma frase não é encorajamento de fala. Primeiro que repetição pode ser mecanizada, não necessariamente há utilização de cognição (funções superiores), segundo que ler em voz alta também pode ser mecanizado, ou seja, o aluno pode simplesmente ler o que estiver escrito e não entender o conteúdo. Por fim, pedir para que nossos alunos inventem uma frase, usando a famosa “give me a sentence with” embora sacie a parte cognitiva do processo aquisitivo da língua, não releva o fator comunicativo (social) que, conforme foi dito anteriormente, carrega o eixo Z da intencionalidade.

Portanto, precisamos nos planejar com o maior cuidado possível para que a gente consiga promover a fala em sala de aula. Por vezes, os materiais didáticos não oferecem esses tipos de atividades. Sem problemas! Nós mesmos podemos criar exercícios para que enfim o ensino de língua estrangeira no Brasil saia da atual posição pífia e enfim nossas crianças se sintam parte do mundo. Se as escolas de idiomas conseguiram oferecer trabalhos semelhantes, a escolas regulares com certeza conseguem aprimorar.

O Bobo, O Rei, O Hoje – Pensamento Crítico Nas Aulas de Inglês

fool

É… vivemos momentos bem delicados politicamente falando. Toda nossa história culminou com uma bipolarização e a falta de discussão em alto nível entre pessoas, civis, fomenta tudo isso. Nossa função como teachers é, claramente, levar essa discussão sobre o que tem acontecido no Brasil para a sala de aula. Para isso, precisaremos da ajuda de um rei. Mais precisamente, o Rei Lear (King Lear).

Vamos deixar tudo muito bem claro: se você não se sente confortável para utilizar a obra original de Shakespeare com seus alunos, não tem problema. Existem inúmeras edições com inglês contemporâneo que podem (devem) ser utilizados, isto é, nada justifica o não uso. Dito isso, vamos entender rapidinho o enredo desta obra de arte shakespeariana. O Rei Lear, como a grande maioria daqueles que têm certo cargo alto hierárquico, se auto denominava o mais inteligente do mundo, aquele que tudo sabia, o detentor absoluto da sapiência, e possuía 3 filhas. Como a idade já estava chegando, ele então pensou em dividir a Bretanha entre suas filhas desde que elas se casassem. Tal qual todo aquele que acredita ser o mais esperto do mundo, todas elas o manipularam e o passaram pra trás, mas ele havia sido avisado, frequentemente, por um dos personagens mais emblemáticos dessa tragédia: o Bobo (Fool). Infelizmente, a tradução para o português acabou perdendo a riqueza do nome desse personagem, pois a palavra fool significa tolo. O Fool é o personagem mais sábio e aquele que consegue, de fato, entender tudo que acontece em volta do Rei, embora Lear desdenhasse dos comentários do Bobo.

Fool
Dost thou know the difference, my boy, between a
bitter fool and a sweet fool?

KING LEAR
No, lad; teach me.

Fool
That lord that counsell’d thee
To give away thy land,
Come place him here by me,
Do thou for him stand:
The sweet and bitter fool
Will presently appear;
The one in motley here,
The other found out there.

KING LEAR
Dost thou call me fool, boy?

Este é o trecho original da peça de Shakespeare em que o Bobo, muito perspicaz, tenta mostrar ao Rei a grande besteira que acabara de fazer ao abrir mão de um pedaço de suas terras a um dos pretendentes de sua filha por achar que ele era digno. Mas… como utilizar isso dentro da sala de aula? Qual a relação que isso tem com 0 momento conturbado que a política brasileira vive? Lembram-se que anteriormente mencionei que usar o original não é necessário? Pois então, para turmas de EF I – acredito que 4° ano seria legal – pode-se trabalhar o uso de algumas características abstratas e pedir que os alunos tracem o perfil de um bobo (tudo no idioma alvo). Em seguida, separe alguns trechos da obra em que o Bobo aparece e converse com os alunos se ele compartilha das mesmas características que eles mesmos propuseram. Para estimular o pensamento crítico deles, pergunte o motivo de eles acharem que sim, compartilha, ou não, não compartilha. Com os alunos mais maduros, talvez até de Ensino Médio, podemos entrar no mérito político de maneira mais profunda e criarmos um debate para que eles digam quem seria o palhaço sábio no nosso cenário atual. Sugestão: utilizar o fato de o Tiririca ser um dos deputados mais éticos da política brasileira na atualidade.

Por mais que nossa responsabilidade seja ensino de uma língua estrangeira, não podemos jamais fechar os olhos para tudo que acontece em nosso quintal e por mais triste que a situação atual seja, podemos fazer um link com obras literárias para motivarmos a leitura, logo contextualizada. Assim, iremos muito além de ensinarmos um idioma. Promoveremos o pensamento crítico (desde cedo) e ajudaremos a formar cidadãos mais conscientes.

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A Força Literária Das Mulheres

Muito tempo atrás, no início do século (21, claro), minha turma do colegial era composta por alunos “santos”, “calmos”, praticamente lordes britânicos. Só que não! A gente só inventava coisa errada, brincávamos e tirávamos sarro de todo mundo e uma das brincadeiras tinha a ver com um amigo nosso que era cabeludão e barbudão. Era a época da novela da Rede Globo “O Cravo e a Rosa” e a brincadeira que fazíamos com nosso amigo era que ele se parecia com o Petruchio, um dos protagonistas da dramaturgia. Mal sabia que aquela trollagem tinha raízes mais profundas e que, de fato, o Petruchio só é Petruchio por causa da outra protagonista, a Catarina (Katherine).

A novela em questão é uma releitura da obra de arte que Shakespeare escreveu mais de 500 anos atrás. O que faz de Shakespeare ser um gênio, e gênios são atemporais, é a capacidade e a sensibilidade que ele teve ao escrever uma comédia com a personagem Feminina tão forte e inteligente quanto o personagem masculino numa época em que igualdade de gênero não era sequer embrionário. Tudo começa pelo título: “Taming Of The Shrew” (O Adestramento do Esperto, numa tradução livre). A primeira impressão é de que se trata de uma obra machista, pois sugere que Petruchio coloque rédeas em sua noiva, com conceito completamente errado; onde já se viu um homem “adestrar” uma mulher somente por ela ter opinião formada, ser inteligente e, muitas vezes, confrontar homens. No desenrolar da leitura, percebe-se que a genialidade de Shakespeare é tão incomparável uma vez que Petruchio acaba mudando suas atitudes e Katherine também, em alguns momentos, faz concessões. Olha a força que a Katherine tem! Shakespeare foi tão cirúrgico (como sempre) ao desenvolver sua comédia que é praticamente impossível dizer quem é o Esperto e quem é o Adestrador, o que deixa mais poderosa a figura da protagonista feminina haja vista que seria impensável uma mulher enfrentar o machismo vigente daquele momento e encabeçar decisões a ponto de se remodelar o comportamento de um homem.

Para alunos, de maneira geral, ler já é chato. Ler uma obra de 60 anos atrás é muito chato. Ler algo escrito 600 anos atrás é garantia de um sono pesado, babas e roncos. Como todas as atividades que constam no lesson plan, utilizar Shakespeare, mais do que nunca, precisa ter relevância com o contexto atual de nossos students. Nossas aulas de língua inglesa poderiam até utilizar a novela da Rede Globo em conjunto com o texto, mas a novela também já ficou bem velhinha para os alunos além de estar em língua portuguesa. Trabalho em dobro. Mas como diria o maior super herói do mundo, o Chapolin Colorado: não priemos cânico. Podemos começar a ler com nossos alunos – penso em turmas do EF2 que já têm mais maturidade para discutir temas importantes – um trecho pré selecionado da obra shakespeariana e promover uma discussão da leitura no idioma alvo. Na discussão, entre outras possibilidades, pode-se fazer uma comparação dos direitos das mulheres na época e quanto elas conquistaram até o presente momento. Para trazer o tema para algo mais atrativo, o filme “10 Coisas Que Odeio Em Você” dialoga com a comédia de Shakespeare e pode ser utilizado como um task de compreensão em sala de aula e, posteriormente, promover o mesmo ou outro debate como uma segunda tarefa. Para fechar, podemos pedir que os alunos selecionem comportamentos inadequados do Petruchio e comportamentos de vanguarda da Katherine e então eles iriam recriar os momentos de “Taming Of The Shrew”, como se fosse nos dias atuais, através de um role play.

Falar da importância feminina dentro da literatura inglesa requer, por baixo, uns 490 anos para talvez conseguir cobrir tudo com detalhes. Abordar a importância das mulheres na história da humanidade então é um continuum que exigiria mais de mil anos para contar. O fato é que elas merecem seu espaço em nossas aulas de inglês não somente nesse dia em que elas são comemoradas, mas sempre que houver possibilidade porque se Shakespeare falou que elas são fortes, quem somos para ir contra o gênio.

Cê Tem Bruneva? Ou Cê Tem Bruchove?

“Mas quando alguém te disser que está errado ou errada, que não vai S na cebola e não vai S em feliz, que o X pode ter som Z e o CH pode ter som de X”. Essa letra da música do grupo O Teatro Mágico, sem querer querendo, tem uma importância linguística interessantíssima. Pois vamos aos fatos: embora a língua portuguesa seja um idioma predominantemente ortográfico, isto é, quando falamos, o fazemos conforme escrevemos as palavras, quando conversamos as palavras acabam tomando uma outra forma fonética e, às vezes, ortográfica. Sabe aquela dúvida quando vamos escrever a palavra “exceção”? Pois essa dificuldade é similar quando nossos alunos travam na hora das atividades de listening.

O início da minha nada fácil carreira (o riso é livre), tive o privilégio de trabalhar numa escola de idiomas bem famosa e o primeiro verbo que os alunos aprendiam, logo na primeira aula, era eat em sua forma infinitiva. Quando os alunos tinham contato com o modelo do áudio, eles ouviam [tüwit] (to eat), uma pronúncia diferente da canônica que seria /tü/ /it/. O resultado: quando os alunos precisavam conjugar o verbo numa frase comum, o que tínhamos era “my daughter [wits] cornflakes for breakfast“. Isso mostra que quando oralizada, a língua inglesa também sofre mutações fonéticas que favorecem a fluência, como pode ser notado na adição do fonema /w/ no verbo eat na forma infinitiva que acompanha to. E de fato quando falamos, a fluência natural da frase oferece a adição de um fonema quando há encontro de sons vocálicos na língua inglesa, e digo sons porque o inglês é uma língua sonora, diferente do português. Essa característica da língua inglesa é um dos obstáculos para nossos alunos quando tem atividades de listening, pois os students vêem a palavra escrita, ouvem os professores produzirem /it/ incansavelmente e no áudio aparece /wit/. É claro que o cérebro deles vai dar um nó.

Por isso, é muito importante, primeiramente, sairmos do nosso status quo e enfim entendermos que pronúncia se trata de algo além do conjunto de fonemas que encontramos nos dicionários para descobrirmos a pronúncia das palavras quando soltas. Por que precisamos sair dessa armadilha? Porque palavras mudam de figura quando no meio de frases durante uma conversa, por exemplo. Aqui no Brasil, os mineiros são conhecidos por fazerem essa elisão de sons como podemos notar em (1) e (2).

(1) [‘popōō’po] na cafeteira?

(2) Quantos [‘kidʒi’kaːrni] você quer?

(3) [‘wadʒju’du] that?

No entanto, não somente os mineiros são capazes de tal proeza linguística, mas os falantes de maneira geral fazem uso desse “fenômeno” que favorece a fluência da oralidade. A diferença é que como se trata de nossa língua materna, não temos costume (infelizmente) de analisar essas junções de sons nas aulas de português e quando nos deparamos com essa situação na língua inglesa (ou qualquer outra estrangeira), temos o hábito de achar que a língua em questão é um bicho de sete cabeças. Mas não é. Pois bem, o simples fato de nossos alunos perceberem que em (3) existe um conjunto de sons que antecipa a palavra that e que a entonação se trata de uma pergunta é um grande passo. Isso é o início de uma análise top-down, ou seja, é uma percepção que nossos alunos trazem por eles mesmos. Great job, guys, mas não é o suficiente.

Segundo o professor Mark Bartram é preciso saber mais do que interpretar o que algo foi dito ou escrito. No caso da leitura, o trabalho fica um pouco mais fácil, mas no caso da oralidade… aí a coisa fica séria! Portanto precisamos separar um tempinho em nossas aulas para brincar com os sons da língua inglesa para que nossos students notem que o primeiro /d/ encontrado em (3) se trata de uma elisão da palavra did – embora eu classificaria como um quase extermínio da palavra – que se funde com a palavra you. A menos que esse tipo de trabalho bottom-up, ou seja, que uma análise que a fala ou o texto promove aos alunos, tenha sido realizado anteriormente, de fato encontraremos students travados nessa parte da atividade de listening.

Portanto, meu amigo professor, quando estiver preparando seu lesson plan, quer seja pra alunos avançados ou os pequeninos, reserve um espacinho para discutir as nuances sonoras que a língua inglesa oferece. Quanto antes fizermos esse trabalho, menor será a chance de termos alunos chegando ao colegial com dificuldades extremas nas atividades de listening, sem contar que a fala também irá melhorar.

O Maravilhoso E Complexo Mundo Da Linguagem

Human Network. Peoples in motion. Connected.

Já ouvi muitos coordenadores, diretores e outros professores reclamarem de barulho dos alunos em sala de aula. Quando eu estava na escola como aluno, sempre que tinha algum barulho, eu estava no meio envolvido com a situação (espero que meus ex-alunos não leiam isso). Estamos falando de uma combinação do tipo fogo e gasolina: crianças e fala, isto é, precisamos incentivar nossos students a falar e eles vão gostar disso. Por que? Porque a língua, segundo Schumann, tem características de Sistema Complexo Adaptativo (CAS em inglês).

Vamos ver se conseguimos entender a ideia de um CAS. Imaginem o seguinte cenário: você acorda todos os dias às 6 e meia da manhã pra ir trabalhar e no caminho, sempre no mesmo horário, você cruza com a mesma pessoa andando de bicicleta. Vocês não se conhecem, não sabem nada um do outro, mas todo santo dia de manhã, vocês se cruzam. Vai chegar um ponto que você vai basear seu horário a partir do momento que você vê o biker, esse será seu padrão de tempo que vai definir se você está ou não atrasado pro serviço. Pois esse padrão que surgiu através dessa “interação” não programada é o que define o conceito de CAS. Ok, Rodolfo, mas o que raios isso tem a ver com as aulas de inglês? Tudo. Se não oferecermos chances para que nossos alunos falem, quer seja de maneira direcionada ou livre, a língua dificilmente irá se desenvolver. Já falamos em outros artigos que a interação é importante para a parte fonética da língua, para os léxicos, quando conversamos sobre a criatividade dos alunos a partir do uso das redes sociais. Mas vamos além. A gramaticalização também depende das interações para que ela ocorra e não sabemos nunca que tipo de padrão sintático uma criança vai produzir primeiro, isso faz com que a língua seja um CAS (Schumann, 2009).

Embora Schumann fale da gramaticalização de um pidgin, assim se transformando em um creole, podemos fazer um paralelo com o processo de aquisição de linguagem, quer seja língua nativa ou estrangeira. “Creolização ocorre abrutamente através de um jargão ou por um pidgin estável sem passar pelo estágio de pidgin estendido ou gradualmente via últimos estágios de um pidgin” (Schumann, 2009: loc. 709). Isso quer dizer que uma brincadeira linguística – por isso insitimos na ideia de laboratório linguístico – pode ser gatilho de uma gramaticalização mesmo se a brincadeira render orações gramaticalmente inadequadas.

(1) * É nóis.

(2) * My dad workeds.

Tanto em (1) como em (2) vemos frases agramaticais, mas que podem ser o estímulo necessário para o desenvolvimento de uma estrutura sintática mais adequada. No caso de (1), é muito comum ouvirmos esse jargão e nossa função como professores é de orientar o momento adequado para uso dele e, por que não, usar essa fala para mostrarmos como que ela se transforma quando utilizada de maneira canônica. Já em (2), percebemos caso de super generalização da regra para terceira pessoa do singular da língua inglesa, isto é, nosso suposto aluno achou que o uso do “s” em final de verbos também deveria ser utilizado para o passado simples. A partir desse cenário temos a opção 1 em que o mundo vai formatar a fala desses alunos e com isso dar corpo na gramaticalização da fala ou a opção 2 que é oferecermos feedback aos alunos sem cortar a criatividade deles mas para que eles saibam outras “versões” da língua. Através desse tipo de interação contínua, espera-se que nossos alunos adaptem sua fala para o modelo que desejamos, por isso podemos dizer que a língua é um CAS.

Portanto, a próxima vez que alguém reclamar do barulho da sala, fale pra essa pessoa que os alunos estão fazendo um trabalho muito complexo e por isso, precisam extravazar para que o resultado seja, no mínimo, melhor do que os que temos presenciado nos últimos anos em relação ao ensino de língua inglesa. Desenvolva seu lesson plan já pensando nos momentos em que os alunos vão falar, deixe-os falar, deixe-os brincar com a língua. Caso contrário, continuaremos no the book is on the table.

Assaye For Alle And Some

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Mais um ano, mais tudo de novo. Mais trabalho, mais contas, mais aulas… Não, aulas ainda não. Mas nada nos impede de começarmos o ano regando a sementinha que há um certo tempo plantei com você, meu amigo teacher: a noção de que a língua é um organismo mutante, em constante metamofose. Por isso, precisamos tomar muito cuidado quando vamos corrigir nossos alunos para evitarmos coonstragimentos. Nossos e dos alunos.

Infelizmente, aqui no Brasil temos uma noção de língua muito conservadora. Qualquer tipo de invenção já é tratada como erro, como morte do português, como desrespeito da nova geração com nosso idioma. Mas como somos professores de língua estrangeira, jamais iremos cair nessa armadilha, pois iremos entender a seguinte situação: se nos apegarmos de fato à perfeição da produção da língua inglesa e sua maneira mais canônica possível, teremos que voltar muitos séculos no passado. Caso a gente tenha uma abordagem conservadora com a língua, iremos exigir de nossos alunos frases iguais a que vemos em (1).

(1) And whoso fyndeth hym out of swich blame,
      They wol come up…

O que vemos em (1) é uma citação de Geoffrey Chaucer, do século XIV! E pasmem, a palavra they está usada de maneira diferente. O pronome está se referindo a uma pessoa do singular, no caso hym (him). Será que temos envergadura moral para dizer que Chaucer não sabia inglês? Mas afinal, qual sugestão para situações como essa? Isto é, o que fazer quando os alunos surgirem com produções que saem do usual?

Antes de mais nada precisamos, de uma vez por todas, colocarmos na cabeça que “language is changing constantly: the English of Shakespeare’s day doesn’t sound like our English today, and the English of 500 years from now will have changed even further“, como disse Gretchen McCulloch. Nosso trabalho é oferecer aos nossos alunos ferramentas para que eles as utilizem para desenvolver o idioma, ou seja, o papel que possuímos é de coadjuvante nesse mundo educacional. Entre as ferramentas que oferecemos, está a função de mostrar aos alunos que qualquer tipo de inovação e criatividade linguística é bem-vinda. Em seguida, temos a tarefa de contextualizar a fala dos nossos alunos, precisamos mostrar que existem situações em que a criatividade com a língua não será muito bem aceita. Assim, conseguiremos manter o estímulo à criatividade com a língua estrangeira, incentivaremos a criação do ambiente de “laboratório linguístico” e a resposta de nossos alunos com certeza será a mais positiva a cada turma que passar.

O fato de they ter se tornado a palavra do ano em 2015 fazendo referência a uma pessoa no singular reforça nossa posição descentralizada dentro da sala de aula. Se ficarmos tolindo todo momento de criatividade de nossos alunos com a língua, vai chegar um momento em que eles não vão mais sentir segurança em se comunicar no idioma alvo. Precisamos entender a inovação linguística e encorajar nossos alunos a brincar com o idioma, assim a língua deixa de ser um bicho de sete cabeças.

As Multi Faces da Pronúncia

multiface

Após um tempinho sem dar as caras por aqui (espero que alguém tenha sentido falta), volto para falar com meus colegas teachers sobre algo que ainda aqui no nosso amado(?) Brasil está muito simplificado e, de certa maneira, mal compreendido. Teimamos em achar que pronúncia é, acima de tudo, sinal de um bom nível de competência linguística, além de ser totalmente associada com combinação fonética na hora de se (re)produzir uma determinada palavra.

É óbvio que à primeira vista o sotaque é o que percebemos e notamos de mais diferente quando conversamos com pessoas de outros lugares, quer seja dentro de um país ou não. Mas, repito, isso não é necessariamente um fator preponderante para se rotular a fala de uma pessoa, principalmente de nossos alunos que estão aprendendo uma outra língua. Se fizermos uma análise da produção fonética de algumas palavras – lembrando que isso não representa, obrigatoriamente, alto nível de competência linguística – encontraremos variações como em (1), (2) e (3).

(1) Have you found interesting /’deI/ta?

(2) Have you found interesting /’dα/ta?

(3) Have you found interesting /’dæ/ta?

Em todos os exemplos, temos instâncias de variação fonética da mesma palavra encontrada na oralização e, caso não tenhamos cuidado na hora de nos prepararmos para dar as aulas, poderemos cair na armadilha de corrigir ou avaliar mal nossos alunos que por acaso produzirem algo diferente do que nós, professores, sabemos. E você pode me dizer “ah! mas essas variações são aceitas, não estão erradas”. Só que precisamos então dar uma olhadinha na etmologia da palavra, isto é, na sua origem. A palavra em questão vem do latim datum e seu plural, data, acabou sendo universalizado, portanto, pode-se imaginar que a pronúncia original é a encontrada em (2). Portanto, temos aqui o exemplo de como um “erro” acabou se tornando uma variação oficial, pois (1) e (3) são produções fonéticas derivadas da palavra original latina.

Assim sendo, nós teachers temos a obrigação de prestar atenção se aquela pronúncia não é uma variação. Depois, precisamos ver se essa pronúncia da palavra causa algum tipo de mal entendido ou ambiguidade porque às vezes, aquele tipo de pronúncia é resultante do sotaque da língua nativa de nosso aluno e, talvez, ele não queira sufocar essa identidade e isso não vai causar problemas. Mas não é só isso, como diriam aquelas propagandas do 011-1406 dos anos 90 e 2000.

Em uma de minhas visitas em escolas, estava esperando a diretora e passaram por mim uma turminha de alunos provavelmente do Ensino Infantil e a professora. Por se tratar de uma escola bilíngue, a comunicação que pude presenciar foi toda em inglês, foi quando a teacher perguntou a um aluno “Do you want a carrot?” (acredito que tenha sido essa a palavra, mas não me lembro com certeza se foi carrot ou outro legume). Naquele momento até me deu vontade de falar o que a professora havia feito, mas me contive e até hoje ela não faz ideia de que ela tem uma professora que cai nessa armadilha. A entonação de frases também faz parte da pronúncia de uma língua e, portanto, da fluência. As perguntas fechadas (yes-no questions) tem entonação diferente das interrogações em português, pois aqui elas apresentam altos e baixos, se colocarmos em um gráfico, teremos algo parecido com uma curva senoidal. Já em inglês, essas perguntas são decrescentes, ou seja, o final da frase, por mais infantilizada que seja para se comunicar com alunos do EI, a entonação vai caindo e o que pude presenciar naquela escola e em outras que não eram bilíngues, é que o professor é altamente influenciado pela língua nativa – o português – e acaba oferecendo aos alunos um modelo de pergunta que não está associado ao idioma estrangeiro.

Muitos colegas acabam caindo nessa cilada quando vão falar com os alunos ou quando vão avaliar as produções orais deles. Quer dizer, alguns teachers ficam tão bitolados com sotaques e pronúncia correta de palavras e acabam se esquecendo de que uma boa pronúncia vai além dos fonemas e da produção canônica das palavras que encontramos nos dicionários. Mas a entonação também não é uma estrela que aquece sozinha o planeta Pronúncia, tem também o tipo de discurso, os pitches, mas esses são assuntos pra um outro texto porque este já ficou bem longo.

Workshop: Gírias e a Influência na Comunicação – Semana de Letras PUC Campinas 20-21/10/2015

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20/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias

 

20/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias

 

20/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias

 

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21/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias

 

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21/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias

 

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21/10/2015 – Semana de Letras PUC Campinas – palestra sobre gírias