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A Melhor Idade

Muito embora naquela época não se usasse tal expressão, a “melhor idade” do século XIV era os trinta e poucos. A do século XX, os quarenta. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, a melhor idade deu um salto para os 50 anos altos e agora, a melhor idade é reconhecidamente os sessenta. No entanto, quando falamos de aquisição de língua estrangeira, a melhor idade não tem um ponto em comum.

Muitas pessoas, quando descobrem que sou professor e linguísta, me perguntam sobre a melhor idade para que uma criança comece a fazer aulas de (geralmente) inglês. Existe por aí um senso comum de que se uma pessoa não aprende uma língua estrangeira quando criança, ao atingir a idade adulta terá muitas dificuldades a ponto de não conseguir aprender direito. Será mesmo que é isso que acontece? A Hipótese do Período Crítico (CPH em inglês) exerce um papel muito importante no processo aquisitivo das crianças. Vamos tentar entender o que seria essa CPH.

Quando nascemos, vamos sendo expostos a uma bateria de pessoas, falas, sons, gestos, etc, e vamos criando sinapses para entendermos o que acontece conosco e com o mundo em que estamos inseridos. A formação dessas sinapses tem seu ápice quando a puberdade é atingida e, portanto, o sucesso da aquisição de uma língua estrangeira é definido se a pessoa começa a ter seu contato com o idioma até o limite desse Período Crítico (Johnson & Newport, 1989; Long, 1990). De fato, se crianças forem expostas ao idioma alvo – e volume de exposição é, sim, um fator importante no processo aquisitivo – há uma grande chance de que no fim da jornada, ou seja, o estágio final da aquisição seja a proximidade de um nativismo, pois teremos formação de sinapses próprias para o idioma alvo.

Sabe como adultos que estudam uma língua estrangeira são chamados? Late learners. Os late learners eram tidas como pessoas que jamais atingiriam o mesmo resultado de uma pessoa que aprendeu uma língua estrangeira até o término do Período Crítico, chegando a 0% de nativismo (Bley-Vroman, 1989) e míseros 5% (Selinker, 1972). Claro que esses estudos são meio velhinhos, mas se tratando de algo menos empoeirado, temos os resultados de Cranshaw (1997) em que houve algum aparecimento de habilidade de fala nativa em late learners.

O fator preponderante para seu resultado e de outros linguístas que estudam a obtenção de um nível próximo ao nativo no processo de aquisição de língua estrangeira é a quantidade de exposição sujeitada. Embora o estágio final idealizado por pessoas que estudam um outro idioma seja, de maneira geral, um nível próximo ao nativo, não podemos nos esquecer de que um nível avançado já é considerado um sucesso e, com isso, o número de late learners com êxito aumenta. Em contrapartida, envelhecimento afeta diretamente nossas funções cerebrais, o que dificulta o aprendizado de uma língua estrangeira, mas que pode ser compensado, por exemplo, por uma taxa de transferência positiva maior pelo simples fato de adultos terem uma língua materna consolidada – chamada de habilidade metalinguística (Birdsong, 2006).

A melhor idade para se aprender uma língua estrangeira? Aquela em que você esteja muito empolgado, comprometido e ciente de que se trata de um processo de aprendizado que demora anos pra ser consolidado. Os mais jovens têm suas vantagens, sim, mas dizer que o estágio final de um late learner de língua estrangeira jamais será próxima de um nativo, o que comprovadamente ocorre com esmagadora frequência com crianças que se expõem ao idioma alvo, não é muito correto. Apesar de todas as dificuldades, tanto adultos quanto crianças podem ter um resultado parecido ao final de seu aprendizado.

De Onde Vem O Coelhinho?

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Muito chocolate faz, sim, mal e pode causar mal estar, mas somente nessa semana todos nós iremos dar uma exageradinha no chocolate. Então nada mais justo que deixar a criançada curtir a Páscoa e, de preferência, em inglês. Uma das vantagens de se trabalhar com alunos dos primeiros anos do ensino fundamental é a facilidade na aquisição da língua estrangeira em função da consolidação do período crítico.

Embora o nome passe a impressão de algo ruim, período crítico é, na verdade, o tempo que a criança tem de maturação, ou seja, é o período em que as conexões neurais se solidificam e coincidem com a consolidação linguística. Birdsong (1999) é um dos representantes mais famosos desse estudo do período crítico e desenvolvimento da língua. Portanto, nada mais legal do que juntar o Coelhinho da Páscoa, o inglês, uma mistura de culturas com atividades dinâmicas que favorecem o aprendizado da língua haja vista as condições de maturação que os alunos estão passando. Dessa vez, tomei a liberdade de usar as ideias da Educaderia, empresa do meu colega Fernando Fragoso, que desenvolve materiais didáticos divertidos com ilustrações muito legais para criar a sugestão de aula pra Páscoa. Sempre, claro, pensando no viés comunicativo da aula de línguas.

Pensando em uma turma de ensino fundamental I (EF I), primeiro ano, ainda há tempo para pegar carona na maturação e, por isso, seria muito legal começar a introduzir sentenças inteiras, trabalhar com estruturas sintáticas juntamente com a apresentação de novos vocabulários, muito comuns nas aulas de inglês pra esse ano. O plano de fundo pra essa atividade é a Páscoa e nada mais bacana do que explorar a imagem do bom e velho coelhinho. Para se trabalhar a oralidade com alunos dessa faixa etária, seria uma ótima ideia utilizar sentenças mais simples mesmo porque a língua materna deles também ainda não está totalmente consolidada. Como aquecimento, o professor pode fazer perguntas simples utilizando contraste para se chegar à resposta “coelhinho”. Por exemplo: “is this the pet for Easter” e vai mostrando figuras ou ilustrações de animais que não sejam um coelho. Após várias perguntas e fotos, uma foto do coelhinho é mostrada e a pergunta muda para  “who is it”, esperando-se uma resposta em conjunto (talvez em português) que se trata do coelhinho da Páscoa. Ótima oportunidade para se apresentar o nome dele em inglês, Easter Bunny.

A Educaderia, empresa que desenvolve e-books e jogos educacionais, oferece um game muito interessante que incentiva a oralidade e a utilização de várias palavras novas. Em uma turma grande, o professor pode dividir os alunos em quatro turmas: grupo vermelho, verde, amarelo e verde. Através de rodadas, cada turno, um grupo fala e várias partes do coelhinho vão sendo introduzidas e trabalhadas, por exemplo, tail, paw, ears, tooth (teeth), eyes, fur, carrot, etc. De acordo com a ilustração da Educaderia, em formato de jogo de tabuleiro, existem pontos de interrogação  que o professor pode utilizar para fazer perguntas extras aos grupos tais como “what’s the eye color of the bunny“, “what’s the favorite food of the Bunny“, etc, para estimular também aqueles alunos que por acaso já se encontrarem num nível linguístico mais desenvolvido que o de seus colegas. Essa primeira parte deve deixar os alunos animados e preparados para trabalharem sozinhos.

Para finalizar a aula, o professor pode pedir que os alunos trabalhem individualmente, ou até mesmo em duplas, desenhando suas versões do Coelhinho da Páscoa com cenários que o professor pode pré estabelecer. O professor pode oferecer aos alunos cenários do tipo fazenda, casa, espaço, floresta para que os alunos insiram seus desenhos e abusem da criatividade e utilizem tudo aquilo que aprenderam durante a aula. Certamente, o período de maturação dos alunos vai ser um importante aliado no aprendizado da língua estrangeira e o professor tem a chance de sair do status quo ao oferecer oportunidade de os alunos se comunicarem para falar sobre o grande personagem da Páscoa.