O Idioma Disfarçado de Língua Inglesa

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Após um período acumulando trabalho, materiais e mais trabalho, cá estou novamente para conversar com meu amigos teachers sobre fenômenos linguísticos que influenciam diretamente na aquisição de linguagem (me senti o padre Quevedo agora falando sobre fenômenos). Nossas escolas, públicas e particulares, têm ensinado inglês como língua estrangeira, escolas de idiomas também têm se degladiado para mostrar quem ensina melhor inglês como segunda língua, mas será mesmo que nossos alunos estão de fato aprendendo inglês ou o que estão produzindo são uma língua diferente disfarçada de inglês?

Talvez esse disfarce seja fruto de algo que já conversamos aqui antes: a influência do idioma nativo no processo aquisitivo da língua estangeira. Não precisam ficar nervosos, eu não vou falar sobre transfers novamente, mas a interferência que, no nosso caso, o português, exerce sobre  a língua estrangeira pode gerar um caso de criação de creole. E o que viria a ser creole, você pode me perguntar. São línguas híbridas criadas a partir de pidgins. E o que seriam os pidgins? São esquemas frásicos, teoricamente sem função sintática, gerados pelo baixíssimo conhecimento de uma língua estrangeira. Mesmo longe e sem ver, consigo perceber o enorme ponto de interrogação estampado na sua testa. Vamos por partes então. Começaremos por entender o que são os pidgins, pois são basicamente a origem de toda nossa conversa. Imagine que você acabou de cair no meio de uma tribo maori, na costa neozelandesa. Deu pra visualizar a situação? Após um tempo, você aprende a dizer coisas simples como “obrigado”, “eu comer”, “por favor”, etc, simplesmente para conseguir manter o mínimo de comunicação possível. Obviamente que nosso pensamento lógico vai nos fazer utilizar a língua que sabemos para tentar inferir (às vezes acertar) como essa funciona essa nova língua maori e, munidos de tentativa e erro mesmo, inserimos partículas linguísticas de nossa língua nativa nesses esquemas frásicos simplificados para tentarmos sobreviver à essa nova aventura nas praias da Nova Zelândia.

Claro que conforme você for interagindo com os maoris, seu alcance linguístico aumenta, aprendendo sons significativos, palavras, aumento dos esquemas frásicos para sentenças completas, significados, em combinação com nossa (para alegria dos gerativistas) inata capacidade de raciocínio. Assim, os pidgins evoluem e se tornam creoles, isto é, uma língua estrangeira recém aprendida que contém buracos sintáticos, influência da língua nativa, mas que se assemelha um pouco mais com uma sentença mais evoluída, como podemos ver em (1) (Schumann, 2009: loc. 473).

(1) And too much children, small children, house money pay.

(2) If like make, more better make time, money no can hapai.

O que Schumann (2009) nos mostra é a maneira que um coreano encontrou para se comunicar em inglês, sendo que seu conhecimento linguístico da língua estrangeira é bem limitado, porém conseguiu(?) conectar sua fala e transmitir significado. Já em (2), nota-se utilização de duas palavras de uma terceira língua, make, que significa “morrer” e hapai, que significa “carregar” ambas em havaiano. É o exemplo da fala de um nativo japonês tentando se comunicar em inglês com um havaiano e é possível perceber que a língua inglesa, embora mais evoluída que a havaiana, ainda contém muitas brechas sintáticas e também nota-se a presença de palavras da terceira língua, o que mostra o início de uma aquisição.

Acho que consegui deixar claro o que são pidgins e creoles, mas o que tudo isso tem a ver com as aulas de inglês e com a maneira que nossos alunos têm se comunicado em inglês? Em alguns anos trabalhando como professor de inglês e outros recentes como linguísta percebi que nossos alunos estão se comunicando em um creole disfarçado de inglês. Podemos perceber em (3) a forma standardizada da língua inglesa, aquela maneira que tentamos ensinar aos nossos alunos, mas, na maioria das vezes, a fala de nossos prezados students tem influência bem direta e aparente da língua nativa – o português – como vemos em (4).

(3) Yesterday, a weird scene happened on the street.

(4) Yesterday, happened a weird scene on the street.

Claro que em (4) trata-se de algo distantemente parecido com creole haja vista a complexidade e conexão entre as palavras para formar a frase, mas a inversão entre sujeito e verbo, que não faz parte do inglês standard (a menos que você seja o Mestre Yoda), mostra a influência da nossa língua nativa. Também é muito comum encontrarmos a fala de nossos alunosmais parecida com creole do tipo “if have vague, I sleep in hotel” com sentido de “if there’s a vacancy, I’ll sleep in the hotel”. Isso occorre, segundo John Schumann e outros linguístas, porque a aquisição fica superficial, não existe aprofundamento de exposição afinal a pessoa consegue, de alguma maneira, transmitir a mensagem e acaba não indo além. Muitas aulas de inglês, quer seja de escolas regulares (públicas e particulares) ou escolas de idiomas, acabam contribuindo para que isso aconteça mesmo que seja sem querer. Nós teachers precisamos tomar cuidado pra que nossos alunos saiam da sua zona de conforto e sejam lingusiticamente desafiados a pensar e aprender para não ficarem atrelados à proposta de comunicação para realizarem uma tarefa ou fecharem um negócio simplesmente.

Às vezes, fatores externos nos deixam de mãos atadas na hora de fazermos nossos alunos darem um salto maior no processo de aquisição de linguagem. Porque faz mal pra nossa carreira de professor ter alunos falando como se fosse o Tarzan, “mim, comida, agora”, sem contar que isso nada mais é do que uma língua híbrida, sem profundidade, um disfarce para a aquisição que foi mais manquitola do que o Saci Pererê.

 

Habemus Linguistics I

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Since always foreign students want to learn slang. I must say I don’t understand why they have this urge to learn slang that passes from generation to generation of students. Despite that, what matters is they want to learn, slang is part of the language and no, they definitely don’t disrupt the language whatever it is. I also decline the argument that internet has been hindering the language – after all, it is considered the guilty for the accelerated metamorphosis of the language creating, then, more and more slang. Ok, but what does this have to do with us teachers? Everything.

In our recent article Having Our English Outside The Box, we talked about the possibility to play with language and still be proficient. Well, you may not like this perspective, but I recommend you get used to accepting some students’ utterances that were once reckoned as “wrong”. We have already mentioned the ultimate use of ‘because’ playing the role of preposition, but what we have been witnessing every single day is a massive attack of linguistic creativity that we teachers need to be aware so we identify whether an utterance is slang or not and, in case it is one, we have to check if the context it was used is indeed appropriate. This is our role: show our students that language has an infinite number of possibilities, but there are situations in which some linguistic forms are more adequate. It is like I always say “if we are going to a barbecue, shorts and flip-flops are ok, but if we’re going to a business meeting, we gotta suit up”. This has to be our spirit whenever our students produce (1) or (2). We have to position the appropriate moment for their utterance.

(1)That film is amaze.

(2)Totes.

Notice that I did not use the “semantically strange” symbol for there many examples of utterances such as those, therefore I consider these slangs as part of a speech community. The case in (1) was not regarded as ungrammatical also for the same reason previously stated. Furthermore, although ‘amaze’ is a reduction of ‘amazing’, playing the syntactic role of adjective, we can take into consideration that this is a new word, thus eliminating any sort of confusion it may cause with the verb ‘amaze’ which would turn the sentence ungrammatical.

Alright. You might ask me then “what’s new about all of this?”. The greatest news here is the origin of this, the internet. This wonderful man made creation that connects everything to everything to everyone has rubbed on our faces how mutant languages are. Take Twitter, for instance. It is one big source of linguistic change. Tweeters know that the message space is highly limited which forces our students to express themselves in a more objective and reduced manner, generating a mutation in the language that would make Professor Charles Xavier jealous. That is why we have the commonly known OMG, LOL and they should never be considered a defeat in language teaching, instead they have to be taken as enriching factor of the language. Imagine how creative our students have to be to convey a message in a short space. With this scenario, we will obviously have abbreviations like IDK, reductions like ‘gonna’, ‘gotta, ‘wanna’, ‘shoulda’, ‘woulda’ and, why not, syntactic changes that end up being mistaken with slangs that are part of some speech communities. And yes, our students will do their best to speak “bad English” just because it is cool. Bucholtz already wrote about it brilliantly.

Thus, my fellow teachers, we have the duty (because we’re pros) to be in touch with the online universe for it materializes in the real world and makes our students coin words, abbreviate their speech, play with the language. Therefore I say it again, the internet has not been disrupting our students’ speech, it has only been going through some changes which is normal in the teenage years and with these changes we see a new type of language, pictorial for times, that facilitates communication.

#InglesNoEnsinoPublico

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Em um de seus memoráveis discursos, John Kennedy uma vez disse: “Não pergunte o que seu país pode fazer para você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu país.” Bom, vivemos num país em que temos que suprir a falta que os governos Federal, Estadual e Municipal fazem no que tange, no nosso caso, educação de qualidade. Como podemos querer que nosso país tenha um papel importante no cenário mundial sendo que nossas crianças do Ensino Fundamental da rede pública de educação, em muitas cidades, não têm em sua grade curricular ensino de línguas estrangeiras obrigatório, pois de acordo com o MEC, nossas crianças só precisam aprender um outro idioma a partir do Ensino Fundamental II (espero que vocês tenham lido isso com o tom sarcástico que o texto infelizmente não me permite colocar).

Talvez as pessoas responsáveis pela educação dos brasileirinhos estejam se esquecendo da importância que o multilinguismo traz. Prometo não escrever uma novela completa aqui nos artigo de hoje, então vou elencar somente alguns fatos para dar início ao nosso movimento que pede ensino de línguas estrangeiras em todas as séries do ensino público. Vamos imaginar a seguinte situação: você está dirigindo seu carro pela estrada quando avista uma placa de curva acentuada que vai chegar em 300m. Nosso cérebro envia informações para que a gente reduza a velocidade, mude a marcha do carro e continuemos nossa viagem. Quando somos multilíngues, nosso cérebro tem processamento similar de preparação, o chamado Controle. Passamos grande parte do nosso tempo falando nossa língua materna (L1) e momentos antes de se entrar num contexto em que uma língua estrangeira (L2) será utilizada, inibimos L1 para que a produção de L2 ganhe espaço (Baum & Titone: 862, 2014). Portanto, essa capacidade de organização linguística também desencadeia em benefícios organizacionais cognitivos nos alunos que aprendem outros idiomas como, por exemplo, atenção seletiva (Bialystock & Majumder, 1998; Martin-Rhee & Bialystock, 2008). Isto é, nossas crianças terão facilidade em direcionar seu foco em múltiplas tarefas sem perder a qualidade, sabendo dar a devida atenção, no caso de matérias escolares, para cada aula que nossos alunos têm ao longo do dia. De um jeito mais lúdico, é como se as pessoas multilíngues tivessem um interruptor para cada conhecimento e dessem um on/off quando necessário. Outro benefício cognitivo que o multilinguísmo oferece aos alunos é o processamento de metalinguagem. Todo professor faz uso de um discurso metalinguístico para passar a matéria aos alunos, ou seja, o professor de Biologia usa a língua para ensinar os termos (a língua) da biologia e os alunos multilíngues tem uma vantagem pois usam a mesma estratégia para se comunicarem nos idiomas que sabem.

A questão social também tem interferência quando nossos brasileirinhos que estudam na rede pública de ensino aprendem outros idiomas. Nossos colegas que trabalham com educação têm se movimentado para pedir uma internet mais digna (se é que existe uma velocidade digna no Brasil) vão encontrar obstáculos quando os alunos começarem a pesquisar informações e novidades que estarão em inglês (assumindo inglês como língua global). A língua estrangeira vai ser a responsável final para que nossos alunos tenham acesso a novos horizontes, novas formas de pensar e expandam suas fronteiras. Com certeza nossas alunas já ouviram falar no Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos, mas será que elas já ouviram falar na candidata a sua sucessora, a Hilary Clinton? Imaginem o efeito que o conhecimento das ideias de uma mulher gabaritada para ser a mais alta representante de uma potência mundial pode ter em nossas brasileirinhas de uma comunidade menos favorecida economicamente. Em uma entrevista que concedi à Educaderia, disse que não sou neurologista para saber se o conhecimento de outros idiomas mudam a forma de pensar de uma pessoa, mas posso afirmar, como línguísta, que a língua estrangeira expõe pessoas a diferentes perspectivas e isso sim interfere no pensamento. Talvez nossos brasileirinhos não tenham, de imediato, a chance de conhecer outros países, mas se eles conseguirem ter acesso a informação através de sua competência linguística já aumenta sua bagagem cultural e se esse estímulo ocorrer por causa das aulas de língua estrangeira, o caminho para a autonomia será facilitado, porque eles terão mais uma ferramenta para trabalharem sozinhos: a língua.

Portanto, fica aqui minha sugestão que espero atingir não somente meus colegas teachers e linguístas, mas também todos os professores de outras matérias, coordenadores, diretores, profissionais da educação, pais, familiares e todos que querem ver a formação de uma geração futura acontecer para, quem sabe, daqui 10 ou 15 anos esses brasileirinhos mudarem muita coisa em nosso país. Por isso, gostaria que vocês lesse e compartilhassem este humilde artigo e utilizassem a marcação #InglesNoEnsinoPublico para fazermos com que nossos alunos da rede pública de ensino tenham, por lei, ensino de língua estrangeira desde o início do Ensino Fundamental. Juntos a gente consegue fazer com que essa importante mudança aconteça

Video Game + PBL + English Class = Fun

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Summer is over. I hear the sad trumpets echoe in the cloudy sky of a rainy day that this news carries while reaching every single fellow teacher. But this shouldn’t mean fun is over at all! As a friend of mine wrote in his thesis “let the games begin”.

Gamefication is hype. Teachers have finally realized that making some activities into games can be a fun way and also effective for language learning, for kids are crazy about games. If this game is any sort of video game, they will certainly ignore everything around them and they will focus 120% on the game – I speak for myself because my girlfriend always complains whenever I get a hold of my PS3. Using video games can also be a great experience forthe English classes we design so that we work the Project-based Learning approach (PBL). In addition to having students work ipfor a ling period, they will certainly become more motivated and excited to perform the assigned task.

Video game won’t actually teach English itslef, the great insight here is to use electronic games in English classes to make the student use their linguistic knowledge and apply it when playing, as James Paul Gee stated (2005). In the online course for teacher we offer – still on progress – we talk thoroughly about how to design PBL activities, but it is worth to remember the importance video games have in the learning process of our students. “Nothing happens until a player acts and makes decisions” (Gee, 2005: 34). This is the background for activities that involve video games and more precisely the application of PBL with these games even in the classroom, which means making our students use their language knowledge to take decisions, create and perform tasks. Before applying a PBL we need to have a well-structured lesson plan where the environment for communication in English already exists and is familiar to students so that information exchange and knowledge sharing happen. Language is a type of knowledge that we acquire and interaction with other students that are working on a similar project enrich the process of language acquisition as they pair up or gather in groups to work inside the classroom according to what you established in your lesson plan.

Maybe you haven’t heard of this game before, but your students have…. for sure. Minecraft. This game has been catching everyone’s attention and it has also been hooking up the kids’ time becoming a worldwide big hit even for some adults. Minecraft is a game available for PS3, Xbox, mobile, PCs and it consists of using a strategy to reach a pre-established goal. You have to stock up blocks to create a world that you imagine and according to the game’s play mode (survival, creative, spectator, hardcore) you need to build things that are determined by the game so you don’t lose. In our English classes we can create a project which students play Minecraft in survival mode and as the game offers guidelines so they continue their project, some lexicon can be drilled, i.e. we teachers play the game beforehand to get to know it and note possible words to present to our students in the classroom before we start the project. When they face unknown words, they look them up and bring the definition to the classroom.

There is also room to work out our students’ speech so they present what they have built and the reason to do so. This means, through this presentation students will have the opportunity to use the words they looked up and to tell their accomplishments in the target language. Thus, we will have the needed motivation for our students to learn English as a second language and the video game become our ally, not to mention that the game itself is really cool. The educational bias that Minecraft has is such that an educational version of the game was released a couple of months ago with special features that can be used in the classroom and, why not, in our English classes. We can also find other ideas to be replicated or improved on their website. Maybe even lesson plans for other subjects that can be adapted to our English classes.

Vacation must be over, but the fun must go on. Surprise your students with this PBL activity that involves technology right now for the beginning of the semester. They’ll love it.

Habemus Linguistics II

emojis

A internet tem sido a ferramenta responsável por trazer à superfície tudo que acontece de novo no mundo contemporâneo. As notícias pipocam instantaneamente e só fica alheio quem realmente opta por ficar desse jeito ou quem não brinca na rede. Por isso temos a sensação de que a internet é a culpada por estragar a língua. Ela é o veículo que nos faz perceber como a língua é mutante e como essa mutação é rápida, as novidades sempre chegam rápidas também.

Vamos fazer o seguinte trabalho de imaginação (bem fértil, por sinal): imaginem que milhares de décadas atrás já existia internet. Nossos ancestrais conseguiam avisar todos os reinos e tribos quando iria ter um ataque de animais selvagens, quando chegasse a época de colheita ou quando alguém tivesse desenvolvido uma maneira de escrita que atendesse a todos. Com certeza iriam culpar a tal da internet também por estragar qualquer que fosse o tipo de comunicação usado na época. Ao que estudos indicam, as escritas mais antigas eram pictoriais, ou seja, eram desenhos que representavam coisas e ações. Eram como se fossem os emojis que todos usamos hoje em dia. Será que os homens das cavernas também reclamaram do surgimento dessa língua pictografada dizendo “esses desenhos nas pedras estão arruinando os grunhidos que usamos para nos comunicarmos, uga buga”? Acho que não. Os emojis também não podem ser considerados inimigos da língua, eles devem ser utilizados como forte aliados inclusive no ensino de inglês, pois serviriam de ponte de transferência de significado, conectando a representatividade que o emoji passa com a língua inglesa.

Já ouviram falar de semas? São traços exclusivos de um léxico que determinam o seu significado. Difícil? Um pouquinho né. Pensem na palavra smartphone. Se eu pedisse pra você descrever pra mim essa palavra, você usaria um conjunto de características que juntas dão significado à palavra. Pois isso é um sema. Todas as palavras, expressões idiomáticas e sentenças carregam significado e têm poder atuante quando falados e os emojis não são diferentes. Eles têm ainda uma vantagem: são altamente visuais, ou seja, não dependem de uma imagem virtual da capacidade cognitiva para compreenderem o significado. Vocês se lembram do primeiro artigo dessa série? Pois falamos como a internet tem ajudado a informar as mudanças linguísticas e também como ela têm influenciado nessas mudanças. As redes sociais e os serviços de mensagem instantânea requerem objetividade na comunicação pois oferecem espaço reduzido para se escrever. No raciocínio de nossos alunos, não vale a pena usar espaço de caracteres para se escrever I love you, da maneira canônica e a fonética tomou partido e então passamos a encontrar I luv ya, luv ya e também luv u. 

Agora temos os emojis para dizer aquilo tudo. Um coraçãozinho ou uma carinha apaixonada já tem valor semântico igual ao de uma frase e precisamos saber utilizar esse recurso para nos auxiliar no ensino de língua inglesa afinal de contas, muitas vezes, principalmente quando ensinamos novos vocábulos, os alunos sabem a definição, utilizam-se dos semas para transmitir a mensagem, mas não conhecem a palavra designada. Para apresentar novas palavras também podemos utilizar os emojis e a carga semântica que eles representam numa atividade que simula o envio de uma mensagem de Whatsapp, por exemplo. Além de facilitar a compreensão de significado, emojis estão integralmente inseridos no contexto dos nossos alunos. Segundo a professora Wyvyan Evans, Bangor University, 40% dos britânicos enviam mensagens inteiramente de emojis. Parece que aquela máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras” está mais em alta do que nunca e de fato tem lógica. Na internet ou por mensagens de celular fica muito difícil de se transmitir emoções, entonação, etc, e isso também faz parte da línguagem. Mostrar aos alunos como fazer isso num mundo em que eles são parte integrante vai motivá-los e engajá-los e quando fizermos a transição para uma escrita menos informal, eles se sentirão mais confortáveis.

Portanto, está evidente que a tecnologia e a internet está enraizada na sociedade e em nossas gerações de alunos que estão e nas que estarão dentro de nossas salas de aula. Nós professores temos que ficar cada vez mais interados nos avanços tecnológicos e nos modismos que encontramos online porque esse modismo só vai ganhar corpo por causa dos feedbacks positivos da molecada e isso vai, como Bakhtin diz, moldar a produção linguística deles, pois a internet faz parte do ambiente dos nossos alunos. Por isso, vamos entender de uma vez por todas que a língua não é estática e que a internet está enriquecendo e nos trazendo essa riqueza de bandeja.

Habemus Linguistics I

words

Desde os primórdios até hoje em dia… alunos querem aprender gírias. Eu confesso não entender o motivo pelo qual eles despertam essa curiosidade que passa de geração para geração de alunos. Apesar disso, o que importa é que eles querem saber, gírias fazem parte da língua e não, elas definitivamente não estragam a língua qualquer que seja ela. Também nego o argumento que a internet tem destruído a língua – afinal ela é considerada a responsável direta pela metamorfose acelerada da língua, criando, então, cada vez mais gírias. E o que nós, teachers, temos a ver com isso tudo? Muito.

Em nosso recente artigo “Tirando o Inglês da Gaveta”, falamos sobre a possibilidade de brincarmos com a língua e mesmo assim continuarmos proficientes. Bem, por mais que você seja contra essa perspectiva, acho interessante que você se acostume a relevar algumas produções orais dos students que antes eram vistas como “erradas”. Já comentamos sobre o novo uso da palavra because cobrindo função de preposição, mas o que estamos presenciando todos os dias é um ataque em massa de criatividade linguística que nós teachers precisamos, mais do que nunca, estar atentos para sabermos se a produção de um aluno não se trata de uma nova gíria e, caso realmente seja, se o contexto em que a gíria foi falada de fato está de acordo. Essa é a função que os professores têm: mostrar aos nossos alunos que a lingua tem uma infinidade de possibilidades, mas que existem situações em que se é necessário utilizar determinadas formas. É como sempre falo “se formos a um churrasco, usamos bermuda e chinelo, mas em uma reunião de negócios, precisamos de trajes mais formais”. Esse é o espírito quando ouvirmos nosso alunos falarem (1) e (2), posicionarmos o momento mais apropriado para tal.

(1)That film is amaze.

(2)Totes.

Notem que eu não utilizei o símbolo de “não-semântico”, pois existem muitos exemplos de produções desse tipo, portanto considero que essas gírias já fazem parte do cotidiano linguístico de uma comunidade. O caso apresentado em (1) não foi considerado agramatical também pelo mesmo motivo anteriormente citado. Mais ainda, embora amaze seja uma abreviação de amazing, exercendo função sintática de adjetivo, podemos levar em consideração que essa seja uma palavra nova, eliminando qualquer tipo de confusão com o verbo amaze que, então, tornaria a frase agramatical.

Ok. Aí você pode me perguntar: mas o que isso tem de novidade pra mim? A grande novidade é a origem disso tudo, a internet. Essa criação maravilhosa do homem que conecta tudo a tudo e a todos tem nos mostrado, escancarado como a língua é um organismo mutante. O Twitter, por exemplo, é um grande causador de mudança linguística. Quem gosta de tuitar com frequência sabe que o número de caracteres disponível é altamente limitado o que força nossos alunos a se expressarem de maneira mais objetiva e reduzida, gerando uma metamorfose na língua que deixaria Raul Seixas com uma bela dor de cotovelo. Por isso que temos os famoso OMG, LOL e isso de maneira nenhuma deve ser encarado como uma derrota da língua, mas sim como um fator de enriquecimento dela. Imaginem quão criativos nossos alunos têm que ser para transmitir uma mensagem num curto espaço. Com esse cenário, óbvio que iremos ter abreviações como IDK, uso de reduções como gonna, gotta, wanna, shoulda, woulda e, por que não, mudanças sintáticas que acabam se confundindo com gírias que fazem parte de algumas comunidades de fala. E sim… nossos alunos vão querer “falar errado” simplesmente porque é muito “da hora”. Bucholtz já escreveu sobre isso brilhantemente.

Contudo, my fellow teachers, nós temos a obrigação (porque somos profissionais) de estarmos sempre em contato com o mundo virtual, pois ele se materializa no mundo real e faz com que nossos alunos criem palavras, abreviem sua fala, brinquem com a língua. Por isso, repito, a internet não está arruinando a fala de nossos alunos, ela só está passando por mudanças, normal na fase de adolescência, e com ela vemos um novo tipo de linguagem, pictorial às vezes, que facilitam a comunicação.

Having Our English Outside The box

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In over a decade teaching English, I have lost count of the many times people (students, teachers, principals, TV ads, etc) told that someone speaks good or bad English. By the time I started my (super duper) career as an English teacher, becoming a linguist was not even an option,  but every time I heard something like that it did not sound good. It was as if language had to be performed in a specific manner otherwise the speaker would be burned like a witch. I do not think this is the way.

Thinking about phonetic symbols we will certainly find a an average line for pronunciation. What would this line turn out to be? Those utterances that cause no confusion, so whether you are from the countryside or the capital, Texas or San Francisco, your pronunciation will not lead you to a minimal pair situation, i.e. those small phoneme chunks that once misplaced will generate different words. In addition to minimal pairs, we can think about accent issue, a very regional linguistic feature. For countless times I also heard people (mis)judging another person’s linguistic competence due to the accent being that maybe that funny sound coming from someone’s mouth is the result of an exposure to an English that comes from northern England, Scotland, ?India, South Africa and maybe that person did not know that. Thus, saying a person speaks “good” English under a fully phonetic perspective may cause some breakdown.

Syntax, oh my beloved syntax! Those who have a linguistic educational background just like this poor writer for sure had dark days doodling syntactic trees to analyze phrases. Believing that a person is a good or bad English speaker leaning upon the syntactic elements noted in a person’s speech is understandable yet arguable. If one of our students uttered something like (1), we would certainly say that he or she is a terrible English speaker and we would even say that the student is not proficient if we compare it with (2) – nonsense!

(1) *You’s cool, man.

(2) You’re cool, man.

Of course our role as teachers is to show our students the language’s canonical manner as can be seen in (2), but labeling (1) as awful and non-proficient English is agreeing with a generative perspective of language, which in fact, even if unconsciously, is part of the behavior some of my peers have. Language does not develop as if there were labelled boxes where we can only put things that are specified in the label. As a matter of fact we can play with the boxes and their content, actually this will happen so that our students know how to explore every characteristic of the language and then they will become a highly skilled speaker once he or she will have become able to to communicate in any sort of context. If we acknowledge that there are some speech community where (1), ‘he don’t work’ among others are accepted, we will not be embarrassed by our students when we hastly correct them – with some kind of arrogant air – because they will certainly say that they had heard that type of utterance from a native speaker which, by our students’ logic, native speakers have more credibility than us. A current phenomenon that portrays metamorphosis in the language is the teen-famous ‘I can’t even‘, where ‘even’ plays a verb. This is not in the correct box, but it is certainly not considered non-proficient.

We teachers have to broaden the matter of language acquisition (Rajagopalan, 1996), because if we keep framing our students’ utterances we will never evolve in the concerns of language in general and we will remain with the biased behavior projecting language as a steady organism that does not carry any proposition, ideas, thoughts and this unfortunately has set the tone of the discussions involving native language teaching in Brazil. We need to try to understand what our students’ point is and then show them the many ways they can achieve their goal in varied contexts. What about you, teacher? How do you have your English outside the box?

Por Que Não Investem Na Gente?

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De tempos em tempos é bom dar uma parada, sair de dentro do calabouço para se ter uma visão macro de tudo que anda acontecendo ao nosso redor. O cenário brasileiro anda estremecido, quase caindo, em todos os aspectos e, claro, o educacional vai no embalo. Mas… será que é por isso que as escolas não têm investido tanto no ensino de língua inglesa?

Vamos então aos fatos, porque senão vai parecer falácia, choradeira ou, de um jeito mais esdrúchulo, vai parecer mimimi. Nosso país conta com um pouco mais de 300 mil professores de língua inglesa dentro dos Ensinos Fundamentais e Médio de acordo com o senso do Ministério da Educação (MEC). Isto é, são 300 mil profissionais que todos os dias têm que preparar suas aulas para ensinar os mais de dezenas de milhões de alunos que o país tem. São poucos profissionais para muitos alunos, ou seja, precisamos repensar a estratégia desse número para que se formem cada vez mais professores de língua inglesa. Para isso, é necessário investimento público e privado de práticas de capacitação desses professores tanto linguística quanto pedagógica.

Desses 300 mil heróis que trabalham com ensino de língua inglesa, cerca de 10% tem formação em ensino de inglês. Vale colocar uma atenção dupla nessa informação: porque poucos professores de inglês são formados por falta de incentivo – incentivo não somente salarial, mas de condições de aprimoramento, intercâmbio com o que acontece no mundo, acesso aos estudos acadêmicos de aquisição de língua estrangeira, etc – as escolas acabam procurando por profissionais que têm algum conhecimento para suplantar esse gap de profissionais, aumentando o número de professores de inglês sem formação. Vamos fazer uma analogia pra deixar a coisa mais didática. Imaginem a Mercedes-Benz, gigante do setor automobilístico mundial, tendo problemas em achar bons engenheiros para desenvolver seus carros luxuosos e altamente qualificados. Para continuarem na atividade, para não fecharem as portas, a Mercedes então começa a contratar para o trabalho de engenharia físicos que tenham algum conhecimento de mecânica. Com toda certeza os carros sofreriam uma queda abrupta de qualidade.

O que deveria ser feito, então, era bombardear os professores com ofertas de capacitação profissional especializada em ensino de língua estrangeira de qualidade para que os 10% que têm formação na área se reciclem e estejam em constante contato com estudos e materiais relacionados ao ensino de língua inglesa e para que os 90% que não tem formação, tenha um norte. Só que infelizmente isso não tem sido feito. Por algum motivo obscuro, as escolas, públicas ou particulares, não oferecem capacitação aos professores de língua inglesa, eles deixam esse desenvolvimento na responsabilidade dos professores, ou seja, se os professores quiserem ser melhores, eles procuram cursos, workshops e treinamento por conta própria, caso contrário, o rendimento das aulas de inglês continuará o mesmo. O que causa maior estranheza é justamente a escola ou a secretaria de ensino não ficarem preocupadas em disponibilizar recursos para que os professores de inglês os usufram. Surpreendentemente, muitos pormenorizam trabalhos de capacitação alegando que as aulas de língua inglesa estão gerando ótimos resultados. Pois então tem alguma coisa errada no número da nota geral do instituto Global English, haja vista que o Brasil obteve média de 3,27 em fluência de língua inglesa, se colocando na posição 70 dentre os 78 países analisados, de acordo com o site valor.com.br.

Todos no Brasil sabem muito bem a importância que a língua inglesa tem, pelo menos, no futuro profissional de uma pessoa. Além disso, ser bilíngue oferece vantagens cognitivas de raciocínio e controle. Não obstante, termos um ensino de língua inglesa de qualidade nas escolas, abre portas para o mundo e expande consideravelmente o conhecimento cultural de nossos alunos. Só que tudo isso não acontece se nossos professores não estiverem preparados para isso. Alguns sistemas de ensino oferecem workshops relativamente interessantes, mas infelizmente são com pouca frequência durante o ano e, na maioria das vezes, sempre relacionados ao material didático, nada que capacite os professores para trabalharem em qualquer escola ou qualquer material didático. Ok, pelo menos é um começo. Agora, deixar os professores responsáveis por procurarem capacitação é ser totalmente conivente com os resultados muito abaixo do satisfatório. Já temos que preparar aulas, trabalhar em duas, às vezes até três escolas e lidar com vários alunos. Jogar essa batata quente no nosso colo não é muito justo.

Se quisessem, mesmo, oferecer um ensino de língua inglesa de qualidade, os responsáveis pelas escolas, repito, sejam elas públicas ou particulares, deveriam oferecer essa capacitação aos professores, porque as escolas que ganham com esse desenvolvimento. Professores bons geram alunos ótimos, alunos ótimos geram futuros promissores, mas as escolas continuam afirmando que suas aulas de inglês são muito boas e, portanto, não precisam decapacitação para professores. Dito tudo isso pergunto: por que não investem na gente?

Vídeo Game + PBL + Aulas De Inglês = Diversão

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As férias acabaram… Ouço a marcha fúnebre ecoar o céu cinzento do dia chuvoso que essa notícia carrega ao atingir cada um de meus colegas professores. Mas isso de maneira alguma precisa significar que a diversão acabou! Como disse um amigo meu em seu TCC: let the games begin.

Gameficação é uma das palavras do momento. Enfim educadores perceberam que transformar algumas aulas em jogos pode ser uma maneira divertida e ao mesmo eficaz para o aprendizado de nossos alunos, haja vista que a molecada adora um joguinho. Se for eletrônico então, com certeza os alunos vão se esquecer de tudo ao redor e a concentração estará 120% no videogame – falo por experiência própria, pois eu ouço reclamações similares da patroa quando jogo meu PS3. Usar videogames pode ser uma ótima experiência também para nossas aulas de inglês para podermos trabalhar a abordagem de project-based learning (PBL). Além de fazer os alunos trabalharem em longo prazo, com toda certeza eles ficarão motivados e empolgados para realizar a tarefa proposta.

O videogame per se não vai necessariamente ensinar inglês aos nossos alunos, a grande sacada de se usar jogos eletrônicos nas aulas de língua inglesa é fazer com que o aluno utilize o conhecimento da língua para que ele o aplique na hora de jogar, como apontado por James Paul Gee (2005). Em nosso curso online – ainda em fase de produção – falamos com detalhe sobre como elaborar atividades em PBL, mas vale ressaltar aqui a importância dos jogos eletrônicos para o aprendizado de nossos alunos. “Nothing happens until a player acts and makes decisions” (Gee, 2005: 34). Esse é o plano de fundo pras atividades que envolvem videogames e, mais precisamente, a aplicação de um PBL com esses jogos inclusive em sala de aula, isto é, fazer com que nossos alunos utilizem seu conhecimento em língua inglesa para tomar decisões, criar e desempenhar funções. Antes de conseguirmos aplicar um PBL, precisamos ter nossa estrutura de plano de aula bem consolidada em que o ambiente de comunicação em língua inglesa já seja normal aos nossos alunos para que a troca de informações e o compartilhamento de conhecimento aconteça. A língua é um tipo de conhecimento que adquirimos e a interação com outros alunos que estejam trabalhando em um projeto similar enriquece o processo de aquisição da língua conforme eles forem trabalhando em sala, que pode ser em dupla, trios ou grupos, depende do que você vai planejar em seu lesson plan.

Talvez você não tenha ouvido falar nesse jogo, mas certamente seus alunos já: Minecraft. Esse jogo tem atraído a atenção e o tempo da molecada e virou um big hit no mundo inteiro, inclusive entre alguns adultos. Minecraft é um jogo que está disponível para PS3, Xbox, smartphones, PCs e consiste em utilizar uma estratégia para se alcançar um objetivo pré determinado. Você precisa ir acumulando blocos diversos para criar um mundo que está dentro de sua imaginação e, de acordo com a estratégia oferecida pelo jogo (survival, creative, spectator, hardcore) você precisa construir coisas que o jogo determina para que você não seja derrotado. Em nossas aulas de inglês, podemos criar um projeto em que os alunos brinquem de Minecraft no modo survival e conforme o jogo vai oferecendo guias para que eles dêem continuidade no projeto, podemos trabalhar da seguinte maneira: explorar o léxico, ou seja, antecipadamente jogamos o jogo para conhecê-lo e anotar possíveis palavras para apresentar aos alunos na sala antes de começar o projeto. Quando eles se depararem com palavras que forem desconhecidas, eles pesquisam a definição e trazem para a sala de aula.

Também podemos trabalhar a fala dos alunos para que eles apresentem o que têm construído e o motivo de assim ter feito. isto é, a partir dessa apresentação, os alunos terão a oportunidade de utilizar palavras que eles já pesquisaram e de contar seus feitos no idioma alvo. Dessa maneira, teremos a motivação necessária que nossos alunos precisam para aprender inglês e o videogame se torna nosso aliado, sem contar que o jogo é bem interessante também. O viés educativo que Minecraft tem é tamanho que foi lançado recentemente o projeto Minecraft for Education com características especiais para serem utilizadas dentro da sala de aula e, por que não, em nossas aulas de inglês. No site, podemos encontrar outras ideias para serem replicadas ou melhoradas ou talvez ideias de aula de outras matérias que podem ser adaptadas às aulas de língua inglesa.

As férias estão acabando, mas a diversão pode e deve continuar. Surpreenda seus students com essa atividade de PBL com tecnologia envolvida já no começo do semestre. Eles vão curtir.

Tirando O Inglês Da Gaveta.

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Em mais de uma década dando aulas de língua inglesa, já perdi as contas de quantas vezes ouvi pessoas (alunos, professores, coordenadores, propagandas, etc) falarem que fulano fala inglês bem ou mal. Quando comecei minha (super) carreira de professor eu não pensava sequer em me tornar um linguísta, mas sempre que ouvia algo daquele tipo, alguma coisa não me soava bem. Era como se a língua tivesse que ser realizada daquela maneira, caso contrário a pessoa seria queimada como faziam com as bruxas. Acho que não é bem assim.

Se pensarmos em termos fonéticos, claro que vamos encontrar uma linha média de pronúncia. O que viria ser essa linha média? Aquelas produções fonéticas que não causam confusão, ou seja, por mais que você seja de Piracicaba ou do Rio de Janeiro, de São Francisco ou do Texas, sua pronúncia não te levará a cair em um problema de par mínimo, isto é, aqueles pedacinhos do fonema que se forem trocados, vão formar palavras diferentes. Além de pares mínimos, podemos pensar no tema sotaque, característica extremamente regional. Inúmeras foram as vezes que ouvi alguém julgar a competência linguística em língua inglesa de uma outra pessoa por causa da pronúncia sendo que, algumas vezes, aquela produção fonética poderia ser resultado de uma exposição a um tipo de inglês desconhecido como o do norte da Inglaterra, o Escocês, Indiano, Sul Africano, etc. Contudo, dizer que uma pessoa “fala bem inglês” sob uma ótica pura e exclusivamente fonética pode dar piripaque.

Sintaxe… ah a sintaxe! Quem fez letras, como este que vos escreve, com certeza teve dias tenebrosos fazendo as árvores sintagmáticas para se analisar as estruturas frásicas. Acreditar que uma pessoa fala bem ou mal inglês em função da estrutura sintática que se é produzida é entendível, porém discutível. Se um aluno nosso produzir algo como podemos ver em (1), certamente diríamos que o aluno fala um péssimo inglês e chegaríamos a ter a pachorra de dizer que ele não é fluente se comparado com (2).

(1) *You’s cool, man.

(2) You’re cool, man.

Claro que nossa função como professores é mostrar aos nossos alunos a maneira canônica da língua vista em (2), mas julgarmos a produção de (1) como inglês péssimo e por isso não fluente é corroborar com uma visão gerativista de linguagem que, de fato, inconscientemente, atinge grande parte dos nossos colegas de profissão. Afinal, a língua não se desenrola como se fossem gavetinhas rotuladas dentro das quais só podemos colocar aquilo que está designado nos rótulos. Pode sim. Na verdade, isso vai acontecer e deve acontecer para que nossos alunos saibam explorar as nuances da linguagem e então se tornar um falante altamente competente uma vez que se terá uma pessoa capaz de se comunicar em qualquer tipo de contexto. Se reconhecermos que existem algumas comunidades de fala que apresentam frases como (1), como ‘he don’t work‘, entre outros, não passaremos vergonha ao corrigirmos nossos alunos precipitadamente e, até, de maneira esnobe, pois com certeza eles irão falar que ouviram isso vindo de um falante nativo e, pela lógica do aluno, eles têm maior credibilidade que nós. O fenômeno mais atual da língua inglesa no que tange estruturas sintáticas é o caso do I can’t even tendo even função de verbo. Isso não está na gavetinha correta hein.

Nós professores de língua inglesa precisamos dar amplitude à questão aquisição de linguagem (Rajagopalan, 1996), porque se continuarmos a engessar a produção linguística de nossos alunos, jamais iremos evoluir no quesito entendimento de linguagem de maneira geral e continuaremos com esse pressuposto preconceituoso que infelizmente assola as discussões de ensino de língua portuguesa ao não entendermos a língua como um organismo mutante carregado de proposições, ideias, pensamentos. Precisamos procurar entender onde nossos alunos querem chegar e mostrarmos as diversas maneiras de se atingir esse objetivo nos mais sortidos contextos. E você, teacher… deixa seu inglês fora da gaveta?